PROINESP 3 - PROGRAMA NACIONAL DE FORMAÇÃO PARA PROFESSORES EM SERVIÇO EM INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO ESPECIAL
PERGUNTAS MAIS FREQÜENTES

Palestra: SÍNDROME DE DOWN: ASPECTOS DA SÍNDROME, DO DESENVOLVIMENTO E DA EDUCAÇÃO ESCOLAR*

Questões respondidas pelo Prof. Hugo Otto Beyer**


Questões:

O que é inclusão?

É importante destacar desde já que o uso do termo Inclusão é feito de forma restrita. Ou seja, diz respeito ao movimento de inclusão escolar que ocorre em vários países do mundo, dentre eles o Brasil, e representa uma postura de inserção dos alunos com necessidades educacionais nas escolas do ensino comum. Estas devem passar por uma série de adaptações, desde as físicas até as propriamente de natureza curricular, de forma que os alunos com necessidades especiais vivenciem um autêntico processo de ensino-aprendizagem (com progressão escolar, terminalidade escolar, etc.).

Como a inclusão pode ser entendida no processo educacional se a maioria das escolas não possuem profissional habilitado na área?

Há um movimento gradativo no Brasil, na esfera da gestão escolar e também dos próprios educadores, de busca de subsídios teóricos e aplicados na escola que possibilitem a inclusão gradual dos alunos com necessidades especiais. De fato, ainda há uma grande lacuna entre o projeto inclusivo e a possibilidade das escolas em praticarem tal projeto. O que deve ser buscado é o trabalho conjunto entre gestores e a comunidade escolar no sentido do amadurecimento das experiências de inclusão.

De que forma pode-se vencer os desafios da inclusão? Qual o papel do Estado? Do professor? E de cada cidadão?

Os desafios da inclusão escolar podem ser vencidos apenas através da união de todos os segmentos envolvidos no projeto educacional. Isto quer dizer que não há um segmento que seja mais importante que outro ou que se possa prescindir da colaboração recíproca. O papel dos gestores públicos, dos professores e da comunidade em geral é, primeiro, conscientizarem-se da importância de que todas as crianças vivenciem uma escolarização conjunta, não segregada, e em segundo lugar colaborarem cada uma no seu círculo de ação para o sucesso da educação inclusiva. Isto significa que os gestores deverão possibilitar a infra-estrutura necessária para a inclusão escolar, por um lado à formação continuada dos professores, direcionada para uma pedagogia inclusiva, e por outro todas as adaptações (físicas, curriculares, etc.) na escola que forem necessárias.

Gostaria de saber se é correto afirmar que a síndrome de down manifesta-se em uma pessoa com maior ou menor intensidade do que em outra?

Sim, a síndrome de Down (como costuma ocorrer em outras situações de deficiência) pode variar em intensidade. Podem ocorrer situações diferenciadas de pessoa a pessoa com esta síndrome, ou seja, a repercussão funcional (no funcionamento orgânico, na capacidade lingüística, nas condições intelectuais, etc.) pode ser diferente entre elas, umas podendo desempenhar-se melhor do que outras. Pode-se citar o caso denominado por “mosaicismo”, que é a situação particular nesta síndrome em que há, além de células trissômicas, células saudáveis no corpo da pessoa, o que faz com que ela tenha uma condição menos acentuada (mais “leve”) da síndrome.

Estudantes com deficiência mental severa podem estudar em uma classe regular?

Evidentemente, os desafios são bem maiores, mas já há algumas experiências realizadas no Brasil e em outros países em que se busca também a inclusão escolar de alunos nesta condição. Porém, é mais freqüente que elas sejam atendidas nas escolas especiais.

Gostaria de saber se pessoas portadoras da síndrome de down possuem realmente uma perspectiva de vida mais curta, ou isto é algo sem fundamento (mito)?

De fato elas têm uma expectativa de vida mais curta. Isto se deve ao fato de haver comprometimento orgânico decorrente da síndrome, especialmente devido à situação de hipotonia muscular. Aproximadamente 40% das pessoas com síndrome de Down apresentam complicações cardíacas. Porém, com os avanços da medicina, através da prevenção e de cuidados médicos a vida das pessoas com síndrome de Down pode ser significativamente prolongada.

Será que as escolas normais vão ter a mesma preocupação que nós de escolas especiais temos com nossas crianças PNEEs? Até que ponto a integração social é importante para as crianças com SD?

A primeira parte da pergunta é difícil de ser respondida, pois é atravessada pela subjetividade de cada educador (no caso o da escola comum), não podendo ser avaliada através de uma simples resposta positiva ou negativa. Porém, acredito que através do amadurecimento da experiência inclusiva os educadores das escolas do ensino comum aprenderão a lidar com a demanda dos alunos com necessidades especiais e reagir positivamente a eles. A integração social é fundamental e não pára na inclusão escolar, porém se estende para as demais esferas da vida (familiar, afetiva, profissional, etc.).

É comum perceber nos portadores de SD um certo retrocesso ou uma determinada apatia, no que diz respeito ao nível de aprendizagem propriamente dita?

Acho que não se pode afirmar (ou generalizar) uma tendência à apatia ou retrocesso na aprendizagem em pessoas com síndrome de Down. Podemos talvez pensar que, assim como há pessoas ditas normais que podem apresentar apatia ou estagnação na aprendizagem, também acontece em pessoas com a síndrome de Down, porém nada que se destaque como característico de tal síndrome. Precisamos avaliar o conjunto do desenvolvimento e das experiências de aprendizagem da pessoa com esta síndrome e entender porque ela apresenta alguma situação de desmotivação para a aprendizagem (acho que a pergunta refere-se à aprendizagem formal ou escolar).

Qual o risco de um casal ter uma criança com síndrome de down? Trissomia ou translocação? Qual seria o risco nestes casos?

A probabilidade do nascimento de crianças com esta síndrome é 1 para aproximadamente 1.000 nascimentos, ou seja, 0,1% de probabilidade. Porém, sabe-se que o fator idade da mãe desempenha certa função, ou seja, a mãe com mais idade (especialmente a partir dos 40 anos) tem uma probabilidade maior de gerar uma criança nesta condição.

Um portador de trissomia do 21 pode ser portador de uma outra síndrome?

É muito difícil. O que acontece é que com certa freqüência a criança com síndrome de Down pode ter situações de comprometimento orgânico, decorrente da síndrome. Por exemplo, uma criança com esta síndrome pode apresentar déficits auditivos e visuais, além do déficit intelectual.

Gostaria de saber se acertamos em colocar um aluno de 14 anos com síndrome de down na 4ª série, mesmo ele apresentando déficit na parte cognitiva? Na escrita, por exemplo, ele encontrava-se ainda escrevendo serrilhado, começando a empregar algumas letras na escrita do nome deles e nos demais conteúdos ele não demonstrava interesse no que estava sendo estudado pela turma.

Há uma tendência a tentar (na medida do possível) possibilitar que os/as alunos/as com necessidades especiais acompanhem os/as colegas com a mesma faixa etária, ou seja, que se evite situações como um adolescente com deficiência mental com idade entre os 15 ou 16 anos convivendo com crianças de 8, 9 ou 10 anos. Isto porque em muitas situações a disparidade social, afetiva e maturacional é muito mais determinante do que a proximidade cognitiva. Se os alunos da 4ª série acima mencionados têm idade média de 10 anos, já ocorre uma disparidade cronológica com o aluno com síndrome de Down, daí decorrendo talvez sua desmotivação escolar. A situação mais ideal é procurar a paridade na faixa etária, porém, provavelmente, em muitas dessas situações, o ensino ou o currículo deverá passar por uma significativa adaptação, conforme cada caso de inclusão.


* Questões elaboradas a partir da palestra Síndrome de Down: Aspectos da síndrome, do desenvolvimento e da educação escolar planejada e proferida pelo prof. Hugo Otto Beyer.
** Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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